Cuidadores

APOIO AOS CUIDADORES

Os cuidadores — sejam familiares ou profissionais — têm um papel fundamental no apoio aos pacientes com ataxia e outras doenças raras que podem ser neurodegenerativas.

Cuidador auxiliando pessoa com ataxia a caminhar

O amor é um remédio já disponível.

A ataxia é uma condição neurodegenerativa que afeta a coordenação motora e o equilíbrio, comprometendo diversas atividades do cotidiano, e pode vir acompanhada de sintomas neuropsiquiátricos importantes, como ansiedade, depressão e outros transtornos de humor.

Cuidadores bem preparados e comprometidos oferecem um suporte integral — físico, emocional e social — que pode contribuir muito para melhorar a qualidade de vida do paciente.

Vejamos alguns exemplos de suporte que podem ser prestados pelos cuidadores.

01
Auxílio nas tarefas cotidianas — ajudar em atividades como se vestir, alimentar-se e manter a higiene pessoal, nas quais o paciente tenha maior dificuldade, com mais segurança.
02
Adaptações — adaptar o ambiente doméstico para facilitar a mobilidade e reduzir o risco de quedas: barras de apoio, remoção de tapetes, reposicionamento de móveis e objetos de uso diário.
03
Monitoramento da saúde — observar novos sintomas ou agravamento de sintomas existentes no convívio diário, para relatar ao médico nas consultas.
04
Facilitação da comunicação com a equipe médica — servir de elo entre paciente e profissionais de saúde, ajudando também quando a fala é afetada (disartria atáxica).
05
Apoio emocional e psicológico — ajudar o paciente a lidar com frustração, ansiedade e depressão, e a manter a motivação.
06
Promoção da autoestima — oferecer suporte contínuo e encorajamento para que o paciente mantenha uma visão positiva e siga engajado no tratamento.
07
Controle de medicações — ajudar a organizar e seguir as prescrições médicas, com horários e dosagens adequadas.
08
Acompanhamento em terapias — ajudar no deslocamento até fisioterapia, fonoaudiologia, hidroginástica, consultas e exames — essencial para retardar o avanço dos sintomas.
09
Apoio domiciliar em exercícios — auxiliar em exercícios feitos em casa (com vídeos de instrutores especializados), oferecendo segurança contra quedas.
10
Estímulo à socialização — incentivar a participação em atividades sociais, eventos e passeios, evitando o isolamento.
11
Educação familiar e adaptação do ambiente — educar família e amigos sobre a condição do paciente, promovendo um ambiente mais inclusivo e seguro.

Primeiro a gente começa...

Um dia que você não esquecerá mais é o dia do diagnóstico — a confirmação de que uma pessoa que você ama tem uma doença rara, degenerativa, incapacitante e ainda incurável. A incerteza (a falta de controle, o desconhecimento sobre o que virá) traz ansiedade e medo tanto para o paciente quanto para o seu cuidador mais próximo.

MUITAS DÚVIDAS NO INÍCIO

  • Será que essa dor que surgiu ontem tem relação com a ataxia?

  • Ela está com insônia... devemos relatar ao neurologista?

  • Aqui tem escada... vamos precisar mudar para outro local?

  • A ataxia pode alterar a pressão arterial?

  • Eu tenho que cuidar dela, e não sei como fazer isso!

  • E se acontecer isso? E se acontecer aquilo?

TENHA CALMA.

Presenciar a dor de alguém que você ama e não ter respostas é difícil. Há muitas perguntas, mas algumas respostas só virão com o tempo. Lide com o que surgir, um dia de cada vez.

Depois a gente melhora...

Se a incerteza e o desconhecimento causam ansiedade e medo, a informação pode reduzir essas sensações ruins. Procure se informar (em fontes confiáveis) sobre a condição com a qual você está lidando, e aplique o que aprender — o conhecimento deve ter propósito.

Apenas aprender não é suficiente, é preciso aplicar. Apenas desejar não é suficiente, é preciso agir.

(Johann Wolfgang von Goethe)

  • Procure saber mais sobre a ataxia (seja qual for o tipo), pois isso ajuda na identificação e no manejo dos sintomas — permite adotar comportamentos que ajudam e evitar os que pioram as coisas.

  • Havendo necessidade, a tecnologia pode ajudar: dispositivos de comunicação, inteligência artificial para leitura e narração de textos e descrição de imagens. Mas não precisa aprender tudo de uma vez — cada coisa no seu tempo.

  • Na dúvida sobre se deve ajudar ou interferir em alguma atividade, pergunte: "Precisa de ajuda?". Não assuma que a pessoa não vai conseguir (isso é capacitismo) — busque o equilíbrio entre preocupação e interferência indevida na autonomia do outro.

Ilustração de pessoas montando um quebra-cabeça em conjunto

Grupos de suporte oferecem um espaço seguro para obter informações e compartilhar sentimentos, medos e experiências sem julgamento, ajudando a reduzir a sensação de isolamento. Há grupos voltados para pacientes com ataxia, e também grupos para cuidadores.

Saber com quem você pode contar em dias difíceis também é importante, pois nem todos vão conseguir ajudar quando você precisar. Cuidar de alguém doente é uma forma sublime de relação, mas não é para todos.

Cuidar de alguém com uma condição rara e grave traz uma nova perspectiva sobre o que é ou não importante. Suas prioridades vão mudar. Procure ajudar a pessoa que você cuida a se organizar melhor:

  • Sempre que possível, esteja presente nas consultas, preste atenção nas orientações do médico, faça perguntas e participe das decisões importantes, em sintonia com a pessoa cuidada.

  • Combine horários para alimentação, remédios, exercícios e descanso. Não precisa ser rígido, mas ter uma rotina ajuda o paciente (o caos gera mais ansiedade) e também o cuidador.

  • Mantenha a documentação (laudos médicos, resultados de exames) organizada — ajuda na busca por direitos (como benefícios do INSS) e na participação em ensaios clínicos e pesquisas.

  • Mantenha atualizados os contatos de emergência da equipe multidisciplinar, que pode incluir oftalmologistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos e psiquiatras.

  • Adapte-se com o tempo: muitos tipos de ataxia são progressivos, e novos sintomas podem surgir. Diante de um novo sintoma, consulte o médico para investigar se há relação com a ataxia e qual a melhor abordagem.

Planejamento financeiro ($) é importante! A ataxia pode ser uma condição cara de manejar: nem tudo se consegue gratuitamente no SUS, alguns procedimentos não são cobertos pelo plano de saúde, pode ser necessário comprar remédios e suplementos, arcar com deslocamento até centros de reabilitação, fazer adaptações em casa, contratar home care ou providenciar internações e cuidados paliativos.

Tempos difíceis geram almas fortes.

(Provérbio Oriental)

Uma frase que circula bastante em grupos de apoio de pacientes com ataxia é: "Você nunca sabe o quão forte você realmente é, até que esta seja a única opção que você tem". Isso também se aplica aos cuidadores. Planejamento ajuda, mas também é preciso ter coragem.

A vida exige coragem não só de quem tem a doença, mas também do cuidador. Coragem não é a ausência do medo — é seguir em frente mesmo estando com medo. Alguns dias serão melhores do que outros. Para quem é religioso, fé em Deus. Para todos, fé na ciência.

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

(João Guimarães Rosa)

Mesmo nos momentos em que tudo pareça muito difícil, tenha esperança. Medo é contagioso — esperança também é, e esperança traz esperança. Tudo é possível, a ciência avança, e coisas boas também acontecem.

Me ame quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso.

(autor desconhecido)

Se você cuida de alguém com uma doença rara, aprenda a perdoar a si próprio, pois mesmo bem intencionado você vai cometer erros. Quando errar, seja apenas honesto: "desculpe, eu estava errado, eu ainda estou aprendendo, eu perdi a paciência".

Da mesma forma, aprenda a perdoar a pessoa que você está cuidando, pois ela terá dias bons e dias não tão bons, e o controle emocional é muito difícil em certas situações. Muitos tipos de ataxia, além dos sintomas físicos, também podem causar problemas cognitivos, transtornos de humor e irritação, além de ansiedade e depressão — em alguns momentos, os "filtros de convívio social" podem não estar funcionando bem, e palavras duras podem ser ditas.

Procure ter paciência. Seja tolerante. E se as coisas passarem do ponto, aprenda a perdoar — e não hesite em pedir perdão quando for o caso. Finalmente, evite cair no "jogo da culpa": doença rara não é castigo divino, nem é culpa de ninguém, é parte da nossa biologia.

Casal se abraçando à beira de uma falésia

A jornada do cuidador aqui compartilhada começou com o medo, mas termina com amor — e não é qualquer amor, é um amor raro. Embora possa ser difícil, cuidar de pessoas raras traz oportunidades raras: testemunhar de perto a força e a coragem de quem você ama é também uma oportunidade para você se tornar uma pessoa melhor.

Em alguns momentos, dizer "você não está sozinho, eu estou aqui por você" poderá ser o único conforto disponível. Celebre as pequenas conquistas — um abraço, ou apenas estar presente, pode fazer muita diferença. Cada dia bom é um dia que deve ser reconhecido. Seja grato por ter um amor raro.

DEPOIMENTO

Renata Nunes vive com Ataxia Espinocerebelar Tipo 3 (SCA3) e compartilha sua jornada e a de seus cuidadores em suas redes sociais.

@renata_ataxia — Ataxia Espinocerebelar Tipo 3 (SCA3)

Cuidadores também podem adoecer. Cuide de si próprio

O cuidador precisa ter atenção ao autocuidado (físico e emocional), pois poderá enfrentar alguns desafios difíceis e também pode adoecer.

01
Sobrecarga física e emocional (burnout) — cuidar de alguém com uma doença progressiva pode ser exaustivo, trazendo fadiga, estresse e sentimentos de impotência.
02
Isolamento social — a dedicação ao paciente pode levar ao afastamento de atividades sociais, hobbies e outras relações familiares.
03
Falta de preparo técnico — muitos cuidadores familiares não têm treinamento formal para lidar com as complexidades da doença.
04
Impacto financeiro — cuidar toma tempo e pode exigir redução de horas de trabalho, além dos custos com medicamentos, equipamentos e terapias.
05
Desgaste mental — a preocupação constante e a incerteza sobre o futuro podem levar a ansiedade, depressão e esgotamento nos cuidadores.

Cuidar de si mesmo não é egoísmo, mas uma necessidade para estar em condições de apoiar os outros.

Os cuidadores são essenciais no tratamento de pacientes com ataxia, mas também precisam de atenção e suporte para evitar o esgotamento físico e emocional. Algumas estratégias incluem:

  • Rede de apoio: nem sempre é fácil, mas procure compartilhar responsabilidades com outros familiares ou, se tiver condições, contratar cuidadores profissionais para auxiliar em turnos.

  • Apoio psicológico: faça terapia se puder, e participe de grupos de apoio para cuidadores, onde possa desabafar entre pares e receber orientação de quem tem mais experiência.

  • Autocuidado: reserve tempo para descanso, atividades prazerosas e cuidados com a própria saúde física e mental. Se você também ficar doente, isso não vai ajudar ninguém.

  • Informação e treinamento: participe de programas educacionais sobre a doença e técnicas de cuidado para se sentir mais preparado e confiante.

  • Apoio institucional: busque ajuda de organizações e associações de pacientes. No caso das ataxias, é importante que o paciente seja cadastrado na Abahe (Associação Brasileira de Ataxias Hereditárias e Adquiridas).

Grupo da NAF no Facebook: Spouses and Partners of Loved Ones with Ataxia Support Group

GRUPO NO FACEBOOK — NAF (National Ataxia Foundation)

Spouses and Partners of Loved Ones with Ataxia Support Group

Grupo privado para cônjuges e parceiros (sem ataxia) de pessoas com ataxia. Idioma: inglês.

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